Como a Rússia aplicará as suas
reservas em divisas?
(artigo de Yana Yurova – RIA Novosti)
A Rússia já quase aprovou o seu principal documento
financeiro para o ano que vem. Trata-se, evidentemente do orçamento
federal. No entanto as discussões mais acaloradas em torno
do dinheiro federal ainda estão por vir, o que já
diz respeito não ao orçamento federal propriamente
dito, mas às reservas do Fundo de Estabilização.
O orçamento venceu desta vez todas as etapas da sua aprovação
de uma maneira dinâmica e mesmo fácil, o que é
bastante estranho. Por exemplo, o documento prevê em 2005
a inflação na casa de 7,5-8,5%, e isto é
irreal. Provam-no os resultados do ano em curso. Era planejado
de manter a inflação a nível de 8-10%, mas
na realidade verificou-se esta já ultrapassou os 11,5%.
É óbvio que será impossível vencer
diferença surgida no ano que vem. Seja como for, mas estas
cifras não provocaram nenhuma discussão no Parlamento.
Uma das novidades do orçamento-2005 consiste no aumento
em 27,7% das despesas com a defesa nacional, e em 26% com a segurança
nacional e os órgãos judiciários. Os deputados
da oposição não duvidam que todos estes meios
serão gastos à toa e assim será até
que na seja efetuada uma reforma normal nestes setores. Mesmo
assim, as discussões não eram prolongadas, tendo
o orçamento-2005 sido felizmente aprovado pela Duma de
Estado e encaminhado em seguida para o Conselho da Federação
(Câmara Alta do Parlamento). Diga-se de passagem que o speaker
do Conselho da Federação, Serguei Mironov, não
tardou em declarar: "Penso que o Conselho da Federação
na sua sessão especial, marcada para 10 de Dezembro, venha
a apoiar o orçamento". Esta óbvia complacência
por parte do bloco parlamentar explica-se pelo fato de que a maioria
dos membros da Duma de Estado são militantes do partido
governante "Rússia Unida". Seja como for, mas
quando se trata de distribuição de meios por regiões
e programas concretos, a unanimidade coletiva logo desaparece.
Pode-se constatar que desta vez ocorreu algo atípico.
Esta submissão inédita dos representantes do povo
lembra a situação quando depois da calmaria vem
a tempestade, pois presenciamos os preparativos para um evento
muito mais significativo em termos monetários, ou seja,
a distribuição dos meios acumulados no Fundo de
Estabilização, o qual para 1º de Janeiro de
2005, segundo os cálculos do Ministério das Finanças,
contará com 574,4 mil milhões de rublos (cerca de
US$ 20 bilhões), prometendo para o dia 1º de Janeiro
de 2006 totalizar 720 bilhões de rublos.
Há de se lembrar que o Fundo de Estabilização
começou a ser criado desde Janeiro de 2004, faturando as
receitas orçamentais, provenientes dos preços de
petróleo acima de 20 dólares/barril. Conforme a
lei, os 500 bilhões de rublos são a soma intocável
destinada a sustentar a economia do pais se o preço de
petróleo cair, mas o destinos dos meios que sobram ainda
é desconhecida.
Há um mês o conselheiro econômico do Presidente
da Federação Russa era muito categórico em
dizer que estes meios podem ser investidos só em projetos
fora do país, incluindo para amortizar a dívida
externa da Rússia. Esta idéia aliciou muitos altos
funcionários, entre os quais figuravam as lideranças
do Ministério das Finanças, do Banco Central e do
Ministério do Desenvolvimento Econômico e Comércio
da Rússia. Com certeza esta idéia tornar-se-ia realidade
se não houvesse a queda de ritmos de desenvolvimento registrada
em Outubro passado.
Enquanto as autoridades oficiais iam quebrando a cabeça
acerca do que tinha sido ocorrido, surgiram outros entraves. Verificou-se
em particular que o crescimento econômico em Novembro acabou
por registrar escassos 4,5%. O primeiro que anunciou estas tristes
cifras era o Banco Popular de Moscou (BPM), filial inglesa do
Banco Central da Rússia.
A propósito, a situação com o crescimento
industrial foi ainda pior. De acordo com as estimativas do Banco
Popular de Moscou, estes indicadores chegaram bem perto dos índices
registrados depois do colapso financeiro de 1998. Durante 73 meses
a Rússia não vivia a conjuntura industrial tão
ruim. Segundo conclusões do BPM, a situação
está em piora estável: o índice de atividade
empresarial que esta entidade calcula mensalmente, está
em baixa já pelo quinto mês consecutivo e em Novembro
situou-se abaixo do nível crítico que equivale a
50 pontos considerados comumente como limite ente o crescimento
e a baixa das atividades. Como resultado, a companhia de investimento
"Brunswick UBS" baixou o seu prognóstico de crescimento
do PIB em 2004 dos 7,5% nas expectativas até 6,5% na realidade,
e para 2005 reduziu este indicador de 6% a 5%.
Reflexionando sobre as causas deste malogro na economia russa,
os economistas e analistas citam o desaceleramento no crescimento
de investimentos. Sem dúvida, as autoridades russas poderiam
ignorar e não dar atenção aos prognósticos
que vêm do Ocidente. Ao menos, os economistas e analistas
do Ministério de Desenvolvimento Econômico e Comércio
(MDEC) da Federação Russa manipulam com a estatística
diferente. E eles estão no país e devem conhecer
melhor a situação. Mas como é possível
convencer os investidores que já têm mostrado sinais
de nervosismo? Para dizer mais, os investidores estrangeiros habituaram-se
a dar mais fé aos relatórios mensais do BPM enquanto
a estrutura filial do Banco Central da Rússia (BCR). Falta
pouco para as agências internacionais de ranking fazerem
uma surpresa de Ano Novo para a Rússia começando
a baixar os seus indicadores de rating, ao contrário do
que vem acontecendo nos últimos anos. E o Ministério
de Desenvolvimento Econômico e Comércio também
desapontou as autoridades. Segundo as suas estimativas o crescimento
de investimentos constituirá este ano 10,5%, em vez dos
11,5% prognosticados.
Tal situação fez com que as autoridades russas
se pusessem a corrigir com urgência toda a política
econômica. Ou seja, criar pelo menos a aparência da
virada para o incentivo dos investimentos. Na reunião dedicada
às questões sociais, o Primeiro-Ministro Mikhail
Fradkov avisou os governadores ser categoricamente interdito apoucar
os programas de investimento por causa da passagem para a compensação
em moeda das regalias sociais.
Agora o Gabinete de Ministros tem outra tarefa pela frente que
consiste em aumentar a confiança dos investidores no mercado
russo. E este postulado até foi fixado no programa de desenvolvimento
econômico a médio prazo - isto é, até
ao ano de 2008. A julgar por tudo, doravante os excedentes do
Fundo de Estabilização têm um grande futuro.
E é exatamente isso o que almejam os deputados, porque
por trás de cada um deles estão dezenas ou, talvez,
centenas de projetos para os quais eles fizeram o lobby.
Na reunião da Duma de Estado o Ministro Guerman Gref declarou
que as disponibilidades do Fundo de Estabilização
tem que ser liberadas para os projetos de investimento a cargo
do Estado. E o dirigente do Departamento de Previsões Macro-Econômicas
(DPM) do Ministério de Desenvolvimento Econômico
e Comércio, Andrei Klepatch, propõe até criar
dentro do orçamento o Fundo Estratégico de Investimento
onde se poderia depositar os excedentes.
Sabe-se que a partir de 2006 o Ministério das Finanças
se propõe elevar o valor limite do preço de petróleo
de 20 dólares/barril a 21-21,5 dólares/barril. Todos
os excedentes que forem obtidos em função da diferença
entre este preço limite e o preço real de petróleo
no mercado serão canalizados para o Fundo de Estabilização.
Mas o preço limite de 20 dólares/barril ficará
vigente para os exportadores. Pura e simplesmente, a margem equivalente
a 1-1,5 dólar e que dá por ano cerca de 60 bilhões
de rublos irá engrossar sistematicamente o novo fundo.
Segundo Andrei Klepatch, estes meios têm que ser liberados
só para os projetos de elevada eficácia macro-econômica
e com juros substancialmente acima dos 7% por ano em moeda estrangeira.
E esta questão já parece contestável. Quem
no país poderá dizer exatamente que projeto concreto
vai render bons lucros? Pois, ninguém. Por isso, há
tantas propostas para o dinheiro ainda não distribuído.
Por exemplo, Guerman Gref considera prioritários os projetos
infra-estruturais e de parceria estatal-privada. Na opinião
de Aleksandr Klepatch os investimentos adicionais são indispensáveis
para o sector petrolífero. Aleksei Kudrin está de
acordo com as opiniões do gênero, dizendo que não
tem sentido de investir os meios do Fundo de Estabilização
para os projetos comerciais. Muito mais razoável canalizá-los
em projetos infra-estruturais a cargo do Estado que não
podem garantir o retorno de recursos nem dentro de um ano, nem
dentro de cinco anos, mas contribuem em geral para o melhoramento
da situação econômica. Podem ser os projetos
relacionados com a construção de rodovias e aeroportos.
No entanto ele é categoricamente contra os investimentos
para os sistemas de transporte de petróleo e gás,
uma vez estes não tem dificuldade em arranjar o dinheiro
no mercado. Quem sabe, talvez os projetos comerciais também
tenham sua chance. Os deputados ainda irão quebrar lanças
para encontrar a melhor aplicação para os meios
em questão.