QUESTÃO
COREANA PASSOU AO "NÍVEL DE TRABALHO"
Dmitri Kossyrev, observador político da RIA "Novosti"
As conversações multilaterais sobre a Coréia
do Norte, que terminaram na semana passada em Pequim, são
qualificadas de maneira muito pessimista pelos analistas
e de maneira muito optimista pelos seus próprios
participantes.
Este fenômeno tem uma explicação simples:
os próprios negociadores obtiveram praticamente os
objetivos que tinham colocado para a atual, segunda ronda
das conversações. Eles consistiam, primeiro,
em protelar o processo negocial sem o frustrar e, segundo,
transferi-lo para um "nível de trabalho",
pois o nível de vice-ministros dos Negócios
Estrangeiros a que as conversações se realizaram
até agora não contribuiu para o seu progresso.
Portanto, a formação dos grupos de trabalho,
que assumirão agora o principal papel, pode ser considerada
como principal acontecimento da ronda de Pequim. Por exemplo,
o grupo de trabalho da Rússia será constituído
por sete a dez peritos - informou Aleksandr Lossiukov, chefe
da delegação russa às conversações
multilaterais em Pequim, vice-ministro dos Negócios
Estrangeiros da Rússia. De acordo com a sua apreciação,
deste grupo devem fazer parte tanto peritos diplomáticos
como especialistas em questões nucleares, por exemplo,
do Ministério da Energia Atômica, e peritos
técnicos.
Ora, os vice-chefes das diplomacias das duas Coréias,
EUA, China, Rússia e Japão reuniram-se em
Pequim não para realizar um trabalho literário
com vista a elaborar o documento final, que em qualquer
dos casos só era necessário para informar
o público e refletia as divergências que praticamente
se mantiveram entre os principais atores das conversações
- Coréia do Norte e EUA - desde a anterior ronda
das conversações realizada em Agosto último.
A idéia de formar os grupos de trabalho surgiu entre
as duas rondas e pressupunha que alguns peritos decidiriam
como a Coréia do Norte "congelaria" ou
"desmontaria" os seus programas nucleares militares,
cuja existência não foi provada até
agora por ninguém, outros poderiam estudar a verificação
e o monitoramento deste processo e resolver a quem seria
mais cômodo realizar o controlo: à Agência
Internacional de Energia Nuclear, à CIA, aos peritos
independentes, etc. O terceiro grupo de trabalho poderia
resolver as questões relativas às concessões
que devem ser feitas à Coréia do Norte em
troca e em que seqüência.
Na realidade, até mesmo sem a criação
formal dos grupos de trabalho, o estudo do "problema
coreano" nem poderia ser feito de outra maneira, pois
a prática dos últimos meses mostrou que só
esta forma funciona. Foi justamente ao nível de grupos
de trabalho que ao longo de meses foram realizados encontros
de "todos com todos" e discutidas múltiplas
questões de pequena e grande importância. Podemos
dizer que sem estes encontros a segunda ronda de conversações
não teria tomado este rumo. Em vez disso, as conversações
multilaterais em Pequim teriam repetido a primeira ronda,
ou seja, ter-se-iam transformado numa discussão pública
em que são importantes não o conteúdo,
mas as questões do prestígio, as formulações
e os elevados princípios.
Na realidade, assistimos a um exemplo clássico de
diplomacia multilateral. Se as duas partes opostas (neste
caso, a Coréia do Norte e os EUA) criam pelas suas
posições contrárias um problema insolúvel,
é necessário dividi-lo em vários problemas
de pequena importância e tentar solucioná-los.
Quanto à própria solução, tanto
ao nível de grupos de trabalho como a qualquer outro,
trata-se do mesmo esquema compreensível a todos.
Ou seja, Pyongyang renuncia às ambições
nucleares militares, independentemente da questão
de saber se os seus programas são reais ou não
passam de um "bluff", e recebe em troca não
só assistência econômica mas também
a cooperação internacional em nome das reformas
e da abertura do país ao mundo. Na realidade, só
são discutidos os pormenores, o procedimento e não
o conteúdo dos princípios da transação.
Como se depreende das declarações oficiais
dos norte-coreanos, eles gostariam que "ambas as partes
baixassem simultaneamente as pistolas" na presença
dos padrinhos do duelo, isto é, dos demais quatro
participantes das conversações. Os EUA continuam
a considerar que têm direito de baixarem a pistola
só depois de a Coréia do Norte o fazer, dizendo
que "a princípio este país deve desarmar-se
completamente e depois conversaremos sobre a economia".
Notemos, porém, que ninguém deixa as conversações.
Primeiro, todos os seus participantes procuram ganhar tempo
até às eleições presidenciais
nos EUA em Novembro próximo, depois das quais será
possível proferir em voz alta a palavra "compromisso".
Segundo, até mesmo sem as eleições
será impossível concluir o acordo enquanto
os peritos não estudarem num ambiente tranqüilo
todas as variantes do acordo e não explicarem às
duas partes opostas como devem baixar as pistolas. E esta
variante "prolongada" convém por enquanto,
em princípio, a todos.