PARA QUE
SÃO NECESSÁRIOS OS DESAFIOS AÉREOS
ENTRE A RÚSSIA E A NATO?
Viktor Litovkin, observador militar da RIA "Novosti"
Na semana passada, um avião A-50 de reconhecimento
e um avião Su-24 MR de reconhecimento naval da Força
Aérea da Rússia realizaram dez vôos
ao longo das fronteiras ocidentais da Rússia e nas
águas neutras do Mar Báltico, perto do litoral
da Estónia, Letônia e Lituânia. Eles
levantaram vôo do aeródromo de Levachovo, nas
proximidades de São Petersburgo, e algumas horas
depois aterraram no aeródromo de Khrabrovo, na Região
de Kaliningrado. Depois de um pequeno descanso os pilotos
regressaram pelo mesmo itinerário.
O comandante-chefe da Força Aérea da Rússia,
general Vladimir Mikhailov, não ocultou que estes
vôos foram empreendidos em resposta às ações
dos aviões americanos E-3 Sentry AWACS de detecção
e identificação à distância que
alguns dias antes tinham chegado aos países do Báltico
procedentes da base aérea de Geilenkirchen na Alemanha
e fizeram uma série de vôos de demonstração
nos céus da Letônia e Lituânia ao longo
das fronteiras da Rússia. Embora representantes da
Aliança do Atlântico Norte tivessem afirmado
que estes vôos tiveram um caráter de instrução
e não de reconhecimento e eram destinados à
verificação da compatibilidade do sistema
"Baltnet" de observação do espaço
aéreo (ele está a ser criado pela Lituânia,
Letônia e Estónia com ajuda de Bruxelas) com
o sistema integrado de defesa antiaérea da NATO,
só pessoas absolutamente inexperientes em assuntos
militares podiam acreditar nas suas palavras.
"Cada um de nós compreende - declarou o general
Mikhailov - que os aviões não sobrevoam territórios
alheios com fins de instrução. E para que
não me levem a mal, organizei também os vôos
dos nossos A-50 e Su-24MR. Esta não foi uma manifestação,
simplesmente não quero ficar a dever e, além
disso, é necessário treinar as tripulações".
O general fez esta declaração em conferência
de imprensa organizada pelo Ministério da Defesa
da Rússia para os adidos das Forças Aéreas
de outros países acreditados em Moscou. Todos os
diplomatas militares, formados, via de regra, pelas faculdades
de serviço secreto das academias militares, compreendem
bem que o próprio comandante-chefe da Força
Aérea não pode enviar os seus aviões
para as águas neutras do Mar Báltico. Para
que os aviões militares possam atravessar as fronteiras
do país, é necessário receber a respectiva
ordem do chefe do Estado-Maior General. É pouco provável
que este último tenha tomado esta decisão
sem a aprovação do ministro da Defesa e, possivelmente,
do Presidente do país.
Portanto, podemos estar certos de que a démarche
do general Mikhailov não foi uma simples manifestação
de "ousadia do comandante-chefe" e do seu desejo
de "não ficar a dever". Assistimos, evidentemente,
a uma ação bem planeada pela direção
militar máxima da Rússia que, provavelmente,
não tenciona mais perdoar aos parceiros ocidentais
o seu desprezo ostensivo pelos interesses da segurança
nacional russa.
O vôo dos aviões AWACS deve ser considerado
exatamente como um desafio.
O caso é que a antena AN/APY-2 instalada no E-3 AWACS
varre um espaço com um raio de 550 km em profundidade.
É efetuado o reconhecimento não só
do espaço aéreo, mas também da superfície
terrestre e aquática. E em 6-11 horas de vôo
o Pentágono, contando com o apoio incondicional e
eficiente de Tallin, Riga e Vilnius, podia ter feito uma
"radiografia" completa do sul da Karélia
e das Regiões de Leningrado, Pskov, Novgorod e Kaliningrado
da Rússia, e os generais russos não duvidam
que foi isso mesmo que aconteceu.
Aliás, por que não se podia observar a terra
a partir do ar, se o território da Rússia
investigado pelo AWACS está inteiramente sujeito
ao Tratado sobre as Forças Armadas Convencionais
na Europa (TFACE)? Aliás, nada impedia Washington
de declarar o seu desejo de fazer uma inspeção
à Região Militar de Leningrado, da qual fazem
parte às regiões administrativas de Pskov
e Novgord e a região especial de Kaliningrado. E
48 horas depois os seus representantes já poderiam
visitar livremente as unidades militares russas e contar
os tanques, canhões, veículos blindados, aviões...
Por que não utilizou os EUA este direito?
Porque quaisquer inspeções no âmbito
do TFACE pressupõem o "princípio da reciprocidade".
Se algum dos países da NATO verifica as nossas unidades
militares podemos exigir o direito análogo de verificar
determinadas unidades de um Estado membro da Aliança
do Atlântico Norte ou as bases deste Estado instaladas
num território alheio, mas sujeitas às disposições
do TFACE. No entanto, embora os países do Báltico,
que nos próximos meses ingressam na NATO e a partir
de cujo território foi efetuado o vôo de reconhecimento
do AWACS americano, declarem a sua fidelidade a todos os
tratados internacionais reconhecidos pela Aliança,
até agora não aderiram ao Tratado sobre as
Forças Armadas Convencionais na Europa. Portanto,
os inspetores russos não podem verificar as suas
unidades militares. E, como é natural, isso cria
uma tensão suplementar nas relações
entre Moscou, Tallin, Riga e Vilnius, de um lado, entre
Moscou e Bruxelas, por outro, e entre Moscou e Washington,
por outro.
Na capital russa são feitas constantemente observações
de que os parceiros ocidentais do Conselho Rússia-NATO,
que em todos os fóruns internacionais falam muito
e pormenorizadamente sobre as crescentes relações
entre as duas partes, na realidade, procuram sempre mostrar
quem nesta cooperação pode fazer tudo o que
quiser e quem não pode.
Tudo isso transforma-se gradualmente, sem dúvida,
num fator irritante para o Kremlin, embora a direção
russa procure aparentar que em princípio, não
ocorre nada de sério.
Mas como é possível dizer que não ocorre
nada se, como informou o comandante-chefe da Força
Aérea da Rússia, em 2004 os meios nacionais
de defesa antiaérea detectaram 250 vôos de
aviões de reconhecimento da NATO ao longo das nossas
fronteiras. Este número é demasiadamente grande.
E os militares receberam, provavelmente, "carta branca"
para empreenderem ações de resposta.
Entre os exemplos figura o vôo efetuado no ano passado
pelo E-3 AWACS americano nos céus da Geórgia.
Em resposta foi levantada ao ar uma patrulha de caças
russos Su-27 com mísseis suspensos que sobrevoaram
algumas vezes a Grande Cordilheira do Cáucaso, ao
longo da fronteira russo-georgiana. Portanto, como vemos,
o método de "pagamento de dívidas"
foi testado ainda antes e não nos céus do
Báltico.
São bem sabidas as conseqüências das "brincadeiras
com armas" e dos desafios ostensivos dos militares:
por alguns motivos podem falhar os nervos de alguém.
E o que acontecerá então?
Na minha opinião, os políticos sérios
devem responder à pergunta sobre se estes "fatores
de irritação" são necessários
nas relações entre Moscou e as capitais da
União Européia e no Conselho Rússia-NATO?
Talvez valha a pena chegar a acordo para evitar "vôos
de instrução" dos AWACS americanos e
outros e, mais ainda, de aviões bombardeiros ao longo
das fronteiras russas.
Aliás, existe uma alternativa. Na mesma conferência
de imprensa com os adidos militares o general Mikhailov
já prometeu enviar bombardeiros estratégicos
russos Tu-160 e Tu-95MS com mísseis de cruzeiro a
bordo "em vôos de instrução para
o Atlântico". "Não nos custa nada
fazê-lo - disse o general. - Basta indicar o rumo,
abastecer os aviões de combustível e avante!".