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ÁSIA APRENDEU A NÃO RECEAR A "CRISE COREANA"
Dmitri Kossyrev, observador político da RIA "Novosti"

Uma das conseqüências mais importantes e por enquanto pouco visíveis da segunda ronda das conversações em Pequim sobre a "crise coreana" foi o fato de nesta ronda se ter tornado definitivamente claro que os círculos políticos e de negócios da Ásia se adaptaram em geral psicologicamente a esta crise e regressam gradualmente à situação que tínhamos antes de Outubro de 2002.
Antes desta data a Coréia do Norte era um dos mais importantes pontos de aplicação de capitais: praticamente um país "em branco", uma zona em relação à qual se podia e se deviam elaborar planos de desenvolvimento econômico.
Quando em Outubro de 2002 Washington declarou que os diplomatas de Pyongyang teriam confessado a James Kelly, assessor do secretário de Estado dos EUA, que a Coréia do Norte tinha programas nucleares militares, muitos homens de negócios tiveram de abandonar os seus planos de construção de estradas, portos, fábricas e linhas elétricas neste país que iniciava reformas.
Atualmente, no entanto, nas próprias conversações em Pequim e nos comentários em torno delas foi divulgada uma série de fatos isolados testemunhando que a crise e as conversações podem ter o seu próprio rumo sem exercer grande influência sobre os planos renascidos de cooperação econômica na Península da Coréia.
Entre estes fatos podemos citar as declarações dos representantes da Rússia, da China e da Coréia do Sul de que em vez dos americanos poderiam eles próprios abastecer de combustíveis a Coréia do Norte, ou sob a forma de mazute ou sob a forma de energia elétrica. Aliás, a delegação americana manifestou "compreensão" em relação a esta posição. Lembremos que até Outubro de 2002 os EUA eram a principal e insubstituível potência nos assuntos coreanos, pois em conformidade com o Acordo-Quadro de 1994 abasteciam de mazute a Coréia do Norte até à conclusão da construção da central nuclear neste país.
Comentando as conversações de Pequim, os meios de comunicação social da região citam múltiplos fatos relativos ao processo de aproximação intercoreana relançada na realidade ainda em 2003, inclusive a ligação dos caminhos de ferro do Norte e do Sul, o início da criação de um parque técnico em Kaesong, ao norte da sua fronteira, etc. O comércio entre o Sul e o Norte da Coréia é estimado em 350 milhões de dólares, entre a Coréia do Norte e o Japão em 370 milhões e entre a Coréia do Norte e a China em 730 milhões.
Por fim, em entrevista concedida ao observador da RIA "Novosti", o embaixador da Coréia do Sul em Moscou, Chung Tae-ik, informou que em Março ou Abril devem realizar-se na Rússia novas consultas entre os especialistas que elaboram o projeto de ligação dos caminhos de ferro do Norte e Sul da Coréia ao Caminho de Ferro Transiberiano da Rússia. Este projeto, que reduzirá, possivelmente, em 20 por cento os custos dos transportes entre a Europa e a Ásia, exige, de acordo com os cálculos russos, 2,5 biliões de dólares de investimentos. A principal questão é agora de saber quem dará estas verbas.
Em princípio, o número de interessados em fazer estes investimentos é mais do que suficiente. O embaixador mencionou também que nos círculos de empresários e políticos da região surge constantemente a idéia de formar um grupo ou conselho consultivo internacional para o desenvolvimento econômico, que contribua para o desenvolvimento da Coréia do Norte e coordene os projetos existentes neste sentido. Para concretizar a formação deste grupo é necessário realizar conversações interestatais. Por enquanto não se põe concretamente à questão do seu início, mas já se fala sobre este tema.
O que tudo isto indica? Podemos supor que os meios de negócios da região conhecem as informações obtidas pelos serviços secretos dos seus países de que a Coréia do Norte não dispõe de um sério programa nuclear e que a crise tem um caráter artificial, pois o seu desencadeamento em 2002 foi uma tentativa desajeitada e, de fato, frustrada da ala "militar" da administração de Bush de pôr em prática o "cenário iraquiano" também na Ásia. No entanto, os resultados reais tanto dos contactos com Pyongyang e com os seus vizinhos como da própria guerra iraquiana fizeram com que estes planos não fossem realizados. É este o segredo da "crise coreana" de que não se fala publicamente a nível oficial para não ofender Washington e ajudar os EUA a superar a situação com menores perdas para toda a região.
Por enquanto todas as partes envolvidas nas conversações coreanas fazem unanimemente uma ressalva dizendo: os nossos planos econômicos progredirão quando for resolvido o "problema nuclear". Por conseguinte, a principal intriga de todas as conversações entre as duas Coréias consiste em saber quando chegará o momento em que os demais participantes do processo negocial se cansarão de salvar Bush e resolverão a crise sem os EUA.
Por enquanto este momento ainda não chegou. Porém, no que concerne aos meios de negócios, eles consideram a administração americana como o provérbio camponês russo "do cão sobre a meda de feno", que não come o feno nem permite à vaca aproximar-se da meda. Por enquanto a impaciência é contida pela expectativa dos resultados das presidenciais nos EUA em Novembro próximo.
Mas até Novembro os grupos de peritos que estão a ser formados por decisão da segunda ronda das conversações intercoreanas, realizada no fim e Fevereiro em Pequim, acabarão por elaborar todo o processo de superação da crise. Aliás, já atualmente, na segunda ronda em Pequim esteve claro como se deve pôr fim à crise, ou seja, conseguir que a Coréia do Norte renuncie sob controlo aos seus programas nucleares militares em troca do reinício de uma vasta cooperação econômica na Península da Coréia.
O mais característico aspecto desta decisão consiste em que teoricamente ela pode ser tomada sem participação dos EUA. Isso é indicado por todos os fatos acima enumerados que vieram à tona no decurso da segunda ronda das conversações em Pequim. Outra coisa é que por enquanto os próprios norte-coreanos não desejam uma decisão "separada", considerando justamente que seria melhor conseguir alguns compromissos com os EUA.
Uma outra potência-chave, a China, não deseja também bruscos movimentos. Podemos supor que a compreensão mútua americano-chinesa acerca da necessidade de protelar as conversações e conseguir a sua conclusão entre as seis partes seja um dos fatores de aproximação entre Pequim e Washington. Tal como as aproxima a desaprovação americana dos planos do Presidente de Taiwan, Chen Shuibian, de realizar na ilha um referendo cujos resultados poderiam estimular Taiwan à independência formal em relação à China.
Todos os outros participantes das conversações, inclusive a Coréia do Norte, compreendem a situação e estão dispostos a esperar também algum tempo. Outra coisa é que mais cedo ou mais tarde esta situação pode mudar.

 
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