A RÚSSIA E O OCIDENTE
Viktor Kuvaldin, cientista político da Fundação
Mikhail Gorbachev
O
rol de acusações lançadas pelo Ocidente
contra a Rússia tem-se mantido o mesmo ao longo dos
últimos anos. As principais são as seguintes:
a violação da liberdade de imprensa; o caso
YUKOS; a ingerência violenta do Estado nos assuntos
econômicos; a desigualdade de condições
dos partidos políticos nas campanhas eleitorais;
a situação na Chechênia e a política
da Rússia em relação à Geórgia
e às outras ex-repúblicas soviéticas.
A estas acusações acrescentam-se, às
vezes, novas, em função da situação.
A mais recente foi a de "atentado à democracia".
Assim interpretaram no Ocidente o fato de a maioria parlamentar
não ter desejado partilhar com as outras bancadas
parlamentares os cargos dirigentes da Duma de Estado (câmara
baixa do Parlamento russo).
Mas nem mesmo no Ocidente próspero tudo corre bem.
As batalhas e emoções provocadas pelas profundas
contradições também não são
raras nos países desenvolvidos. O exemplo é
o conflito entre a Europa e os EUA em torno do Iraque.
Todavia, as trocas indolentes de críticas recíprocas
entre a Europa e os EUA, por um lado, e a Rússia,
por outro, parecem estar a entrar numa nova fase. As dúvidas
de que a Rússia seja capaz de construir uma economia
de mercado civilizada, uma democracia liberal e uma sociedade
aberta vem aumentando no Ocidente graças inclusive
aos esforços dos nossos ex-parceiros do "campo
socialista". Em busca dos favores da União Européia,
eles não se cansam de salientar a sua origem européia
e as suas contradições com a Rússia
"eurasiática". Do seu lado jogam, não
raro, Boris Berezovski e os líderes dos partidos
que perderam as eleições.
Por outro lado, os russos estão cansados das admoestações
arrogantes da Europa sobre como devem construir a economia
de mercado e a sociedade democrática, tanto mais
que muitas receitas ocidentais aplicadas ao solo rochoso
russo não resultam. O Ocidente não se apressa
a reconhecer a sua parte de responsabilidade pelo yeltsinismo,
que levou a Rússia a uma catástrofe nacional,
pelo que é incapaz de acolher de forma adequada os
passos da equipa de Putin para a superação
da herança nefasta do regime corrupto e criminalizado
dos anos 90. Finalmente, os mentores ocidentais norteiam-se,
não raro, pelos seus interesses egoístas e
não se preocupam com o destino das reformas russas.
A incompreensão e irritação acumuladas
dos dois lados vêm constituindo uma mistura explosiva
em que qualquer desavença, por menor que seja, pode
provocar uma grande crise nas relações entre
a Rússia e o Ocidente. Nem sempre a razão
domina a política.
O que é preciso fazer para diminuir a tensão
e evitar a confrontação desnecessária?
Como sempre, é melhor começar em casa. As
críticas à Rússia são, nalguns
casos, justas. Todavia, não se pode deixar de ver
que muitas das medidas tomadas por Vladimir Putin e a sua
equipa deveram-se à imperiosa necessidade de salvar
o país. Em tais emergências, não há
tempo para pensar numa economia de mercado civilizada nem
no desenvolvimento da democracia.
Hoje em dia, a situação é completamente
diferente. Não existe mais a ameaça de desagregação
da Rússia. Foram recuperados o prestígio do
poder central, a governabilidade dos processos sociais e
a estabilidade social. A economia russa regista um desenvolvimento
dinâmico, diminui a pobreza e forma-se a classe média,
recupera-se a confiança e a esperança no futuro.
Tudo isso terá certamente reflexos nas próximas
eleições presidenciais em que Vladimir Putin
conquistará, sem dúvida, uma expressiva vitória
já na primeira volta.
A construção de uma economia de mercado civilizada
e de uma democracia política desenvolvida é
um caminho longo. Seria ingênuo e incorreto avaliar
o atual estado de coisas na Rússia através
dos padrões ocidentais. Se é certo que Roma
e Pavia não se fez num dia, não é menos
verdadeiro que a democracia, na verdadeira acepção
da palavra, não poderá ser construída
na Rússia em poucos anos. Mesmo assim, a Rússia
pode permitir-se, desde já, o luxo de fazer projetos
de longo alcance como, por exemplo, a elaboração
de uma estratégia de modernização nacional.
Aqui o mais importante é ter-se sempre presente que
o avanço geral num sentido programado é mais
importante do que ter logo resultados concretos.
Primeiro, temos de responder a algumas perguntas embaraçosas:
Serão mesmo necessários tantos canais televisivos
públicos? O que é melhor: meter os oligarcas
na cadeia ou obrigá-los a trabalhar para a sociedade?
O que estamos a construir na Rússia: uma federação
ou um estado unitário? Poderá o poder ser
forte com um parlamento fraco? Valerá a pena fazer
depender o futuro do país do destino de uma só
instituição ou de uma só pessoa? E
assim por diante, a lista de perguntas embaraçosas
pode continuar.
Enquanto isso há coisas de uma outra dimensão.
As contradições entre a Rússia e o
Ocidente na política internacional incidem sobretudo
no espaço pós-soviético. Os EUA declaram
esta região zona dos seus interesses, ditados pelo
combate ao terrorismo internacional ou pela busca de novas
fontes de energia. Todavia, por maior que seja o apetite
e a fantasia dos EUA, o espaço pós-soviético
não é uma zona de interesses vitais de Washington.
Para a Europa, com o alargamento da União Européia,
as ex-repúblicas soviéticas tornam-se vizinhas.
Daí, o seu interesse por tudo o que se passa do outro
lado da fronteira. Ainda que este interesse seja grande,
a União Européia não deseja nem pode
assumir a responsabilidade pelo futuro das ex-repúblicas
soviéticas, a não ser os países bálticos.
A UE precisa solucionar os seus problemas internos decorrentes
do nivelamento do espaço europeu do Atlântico
aos Mares Báltico e Negro, o que levará certamente
décadas.
Para a Rússia, o espaço pós-soviético
é um habitat historicamente natural. Não será
então melhor que os EUA e a União Européia
ajudem as ex-repúblicas soviéticas a alcançar
o elevado nível da civilização atlântica
e cooperem neste sentido com a Rússia, considerando
devidamente os seus interesses legítimos neste espaço?
RIA "Novosti"