PODERÁ A RÚSSIA
TORNAR-SE LÍDER ECONÓMICO MUNDIAL?
Nikolai Chmeliov, acadêmico, diretor do Instituto
de Estudos Europeus da Academia das Ciências da Rússia
Muito me apraz ouvir dizer que a Rússia tem todas
as potencialidades de tornar-se, num futuro próximo,
líder econômico mundial, a par da China, Índia
e do Brasil. Não excluo que isso possa acontecer
num prazo de cinqüenta anos ou mesmo antes e que os
EUA fiquem na dependência da China. A Rússia
também tem condições para se desenvolver
a ritmos impetuosos. No entanto, não podemos silenciar
um aspecto tão importante como a sorte. Ninguém
sabe se haverá ou não mais uma catástrofe
global.
Enquanto isso, ninguém pode contestar que a Rússia
está a recuperar aos poucos da vertiginosa queda
econômica de 1998. O governo recentemente demitido
pelo Presidente Vladimir Putin conseguiu estabilizar a economia,
acalmar o país e levar as reformas por adiante, embora
a ritmos moderados, não tendo feito nenhum erro irreparável,
o que é muito importante. De um modo geral, os indicadores
de desenvolvimento da Rússia nos últimos anos
dão muitas razões para optimismo. Com efeito,
o crescimento anual de sete por cento não é
nada mau para começar.
Todavia, o problema da modernização da economia
nacional representa hoje um dilema entre o crescimento e
o desenvolvimento, ou mais exatamente entre o crescimento
acelerado do PIB e as profundas transformações.
Este dilema não é uma fantasia, pois verificou-se
que o crescimento pode acontecer sem o desenvolvimento,
ou seja, ser causado por fatores favoráveis passageiros
como a desvalorização da moeda nacional, a
melhoria da conjuntura internacional, a alta dos preços
dos produtos tradicionais da pauta exportadora. Mas tal
crescimento não poderá servir de base para
a solução dos importantíssimos problemas
econômicos e sociais se não se apoiar em mecanismos
de desenvolvimento internos. O crescimento sem o desenvolvimento
é sempre passageiro.
Pode-se entender o descontentamento do Presidente Vladimir
Putin com a ausência de planos econômicos ambiciosos
no governo anterior. Para sermos justos, temos que admitir
que o governo fixou como um dos principais objetivos o crescimento
anual do PIB na segunda metade da década em curso
a uma taxa de seis por cento. Mas era só isso. O
governo não olhava para além da década
em curso nem tomava em conta as questões estratégicas
da economia nacional que, na verdade, são numerosas.
A primeira é a seguinte: Valerá a pena proceder
a uma segunda "volta" das privatizações
gratuitas na Rússia? Boa parte do patrimônio
pública, chamada, por hábito da época
soviética, "propriedade de todo o povo",
continua em poder do Estado. São os sectores da eletricidade,
dos transportes ferroviários, dos transportes rodoviários,
dos portos marítimos e fluviais, da indústria
de guerra, das telecomunicações e correios,
dos recursos hídricos e florestais e muitos outros.
É óbvio que a sociedade não vai ganhar
nada ou quase nada com uma segunda "volta" das
privatizações, como não ganhou nada
com a primeira.
Não sou contra as privatizações em
princípio. Mas acho que uma sua segunda volta deverá
ser adiada por vinte, ou melhor, dizendo, por trinta anos
para que possamos preparar-nos para ela tão bem como,
em tempos, os países europeus e a China.
A segunda questão refere-se à distribuição
dos lucros e superlucros obtidos com a exploração
dos recursos naturais. Os grandes empresários nacionais
beneficiaram, durante 12 anos, de um regime de preferência
máxima na distribuição de lucros entre
o sector privado e a sociedade. Tais preferências
não se concedem em nenhum outro país do mundo.
Um outro aspecto é a adesão da Rússia
à Organização Mundial do Comércio
(OMC). A necessidade da adesão não causa dúvidas.
O que se pode contestar são as datas. A entrada da
Rússia na OMC deverá ser cuidadosamente preparada
e, portanto, acontecer dentro de dez ou quinze anos. De
contrário, a Rússia correrá o risco
de perder as suas indústrias aeronáutica,
automobilística, alimentar, a sua agricultura e o
seu sector bancário. Muito me apraz ver que a administração
do Presidente Putin assume uma posição ponderada
nesta questão.
O futuro da economia nacional está a ser construído
hoje. Encaro as suas perspectivas com optimismo moderado.
Mas o meu optimismo seria muito maior se o Estado tivesse
revisto na prática a sua posição em
relação às pequenas e médias
empresas e aos sectores de altas tecnologias e, portanto,
ao sector científico. O governo dos reformadores
dos anos 90 estrangulou, de fato, as pequenas e médias
empresas na Rússia, embora os pequenos e médios
empresários sejam responsáveis por 45 por
cento da economia nacional. Apaixonados pelas reformas,
os reformadores quase destruíram o sector da ciência.
Tanto mais agradáveis são as palavras, ultimamente
repetidas com freqüência: "A Rússia
possui potencialidades colossais para efetuar descobertas
em novas áreas ... Há condições
favoráveis para avanços na área das
altas tecnologias...". Mas as palavras de apoio não
são seguidas, por enquanto, de apoio concreto.
RIA "Novosti"