BAILADOS
DE BALANCHINE NO TEATRO BOLSHOI
Olga Sobolevskaia, observadora da RIA "Novosti"
"O sarau de bailados de George Balanchine", dedicado
ao 100.º aniversário natalício daquele
famoso coreógrafo russo, será, sem dúvida,
um evento marcante na vida do Teatro Bolshoi. A estreia
terá lugar no dia 12 de Março.
Esta será já a terceira tentativa de encenar
as obras de Gueorgui Balanchivadze (natural de São
Petersburgo, tendo posteriormente emigrado para Nova Iorque,
onde passou a ser conhecido como George Balanchine). A primeira
experiência foi o espetáculo "O Filho
Pródigo" que, sendo um bailado de Serguei Prokofiev,
foi encenado no Bolshoi em 1991 por John Taras. Depois,
passados 8 anos, por iniciativa da célebre solista
do Bolshoi, Nina Ananiachvili, no repertório do teatro
surgiu um programa que integrava outros espetáculos:
"Agon", de Igor Stravinski e "Mozartiana"
e a "Sinfonia em dó maior", de Georges
Bizet, também encenado por John Taras. As principais
partes eram interpretadas por Nina Ananiachvili, adepta
de Balanchine e uma das melhores intérpretes dos
seus "desígnios coreográficos".
O novo projeto do Teatro Bolshoi será maior do que
o realizado em 1999. O público poderá ver
o "Agon" na encenação de John Clifford,
a "Sinfonia em dó maior", assim como os
bailados "Concerto Barroco" de Bach, os fragmentos
"Passo de dois", do bailado "Sylvia"
de Leo Delibes, "Passo de dois" de Tchaikovsky
e "Tarantelle", de Louis Moreau Gottschalk. Estas
obras-primas são interpretadas por Jonh Clifford,
Marina Eglevski e Adam Luders, coreógrafos que possuem
"direitos ao estilo de Balanchine".
"Fiquei muito entusiasmado com a proposta de trabalhar
no Bolshoi", confessa John Clifford, acrescentado ter
"começado a gostar de bailado por causa de Maia
Plistetskaia". "Quando a vi no palco, percebi
que a dança nos pode dar um autêntico consolo
e prazer", frisou Clifford, professor catedrático
e coreógrafo do New York City Ballet.
A recente digressão do ballet do Bolshoi em Paris
deu-lhe "mais inspiração". "Para
este grupo, a atuação não é
menos importante do que a dança", prossegue.
"Os artistas russos sempre se destacaram pela emoção
que sabem revelar no palco", explica, por seu turno,
o dirigente artístico do ballet do Bolshoi, Aleksei
Ratmanski, conhecido bailarino e coreógrafo, de 35
anos.
No Teatro Bolshoi, John Clifford dedica muita atenção
aos ensaios. Acontece que os intérpretes ainda "não
se acostumaram ao estilo coreográfico de Balanchine".
Neste plano, está a "liderar" o Teatro
Mariinski que, nos últimos anos, encenou vários
espetáculos de Balanchine. Todavia, como demonstra
a prática, os bailarinos do Bolshoi "podem assimilar
qualquer estilo". "Os artistas do Teatro Bolshoi
são muito bem preparados, estando em excelente forma
física", salienta Aleksei Ratmanski.
"A obra de George Balanchine tem origem na escola do
Teatro Imperial", assinala John Clifford. Foi precisamente
"a cooperação com o ilustre empresário
e mecenas russo Serguei Diaguilev (organizador dos "Ballets
Russos" na Europa no início do século
XX) que ajudou a descobrir, em plena medida, o potencial
criador de Balanchine", disse. "Os movimentos
dos bailarinos são rápidos", comenta
Clifford, realçando que "eles assimilam com
facilidade as recomendações".
O estilo coreográfico da "Sinfonia em dó
maior" e de "Tarantella" é mais habitual
para os artistas do Bolshoi, do que o estilo do "Concerto
barroco" ou de "Agon". Quanto ao "Concerto
barroco", Balanchine sugeriu interpretá-lo no
estilo de Fred Astor. Nesse espetáculo, construído
sobre a música de Bach, os artistas devem fazer apenas
movimentos clássicos, se bem que as múltiplas
síncopes introduzam as suas correções.
Por isso, Adam Ludres tem que "pôr à vontade"
os bailarinos e fazer atenuar a sua plasticidade.
No que respeita ao "Agon", John Clifford ressalta
o seguinte: "Este bailado é muito bonito e destaca-se
ainda apela ingenuidade". No entanto, os artistas devem
atuar muito concentrados do ponto de vista físico
e intelectual". Balanchine escolheu uma música
de certa maneira inadequada à dança. Não
se pode imitar a música de Stravinski, já
que muitos dos movimentos no bailado ocorrem em silêncio,
conforme um determinado ritmo, mas sem acompanhamento",
reconhece Clifford. Na ópera de Paris houve problemas
semelhantes, uma vez que "os intérpretes dançam
aquilo que ouvem". Além disso, no "Agon"
ocorre "uma autêntica batalha entre o homem e
a mulher", adianta Clifford. "Não é
por acaso que, nos minutos finais do espetáculo,
eles parecem fatigados ao ponto de caírem um sobre
o outro".
George Balanchine nunca costumava "decifrar" ou
revelar em detalhe o enredo das suas obras. Como regra,
dava a liberdade de interpretar e de procurar autonomamente
formas e soluções para cada gesto. Por outro
lado, a tradição clássica russa era
"autoritária", prevendo a pressão
total por parte do coreógrafo. Podemos concluir que
o Sarau de Bailados de George Balanchine deverá ser
uma combinação experimental das duas tradições,
sendo este o estilo cultivado pelo Bolshoi no início
do século XXI.